Professora aposentada lança candidatura à embaixada nos EUA

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Dirce Pereira da Silva tem uma página no Facebook e o apoio de ex-alunos, parentes e amigos

A professora Dirce Pereira da Silva, “anticandidata” à embaixada nos EUA

A professora Dirce Pereira da Silva, “anticandidata” à embaixada nos EUA. Foto: Reprodução/Facebook

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) ganhou uma concorrente pela indicação à embaixada brasileira nos EUA. Aos 84 anos, a professora aposentada Dirce Pereira da Silva, de Penápolis, lançou sua candidatura ao posto em Washington.

Em entrevista ao blog do Pichonelli, no Uol, ela explicou que é uma “anticandidatura”, tal como Ulysses Guimarães contra Ernesto Geisel em 1973. “Teremos discussões muito interessantes”, diz ela.

A postulante tem a seu favor a hashtag #DirceNaEmbaixada e uma página no Facebook. Até o momento, 111 pessoas prometeram comparecer a um ato simbólico, em Brasília, em 15 de novembro. Alguns ex-alunos já se empolgam e manifestaram apoio.

A brincadeira colocou em debate, entre os seguidores da professora, as credenciais dela e do filho do presidente. Enquanto o deputado fala inglês e já fritou hambúrguer durante um intercâmbio no país, a professora fala, além do inglês, espanhol e francês.

A página criada para seus seguidores conta com uma enquete sobre qual linha deve pautar sua atuação na embaixada. As opções são: a defesa dos direitos humanos, cidadania e combate a todas as formas de preconceito, lamber as botas de Donald Trump, ou repetir como papagaio a expressão “tá okay”?


BIOGRAFIA

Dirce trabalhou como lavradora (1939-1942), lavadeira (1942-1954), professora (1955-2004) e diretora de escola (1974-1986), além de ter licenciatura em pedagogia e pós-graduação em educação.

Ela é neta de um escravo nascido dez anos antes da Lei do Ventre Livre. Em 1954, ela se tornou a primeira professora de uma família que contava com 187 pessoas, todas analfabetas. “A 188ª tornou-se, quase que por ironia, alfabetizadora”, contou. O primeiro patrão do seu pai tentou comprá-la quando tinha 15 anos. Hoje ela se define como “uma simples militante de direitos de minorias”.

“A minha luta contra o racismo começou provavelmente em 1934, quando nasci. Esse foi o maior desafio da minha vida, sem dúvidas, mas não foi o único. Eu fui proibida de me casar com meu noivo pelo simples fato de ser negra. A proibição veio não apenas dos pais dele, mas também da própria igreja”, lembrou.


HOMENAGEM

Em 2008, a Prefeitura decidiu homenagear Dirce em um ato simbólico, que ela considera um pedido tardio de desculpa por ter sido expulsa de quase todos os bailes da cidade na juventude. Ela relembrou também ter testemunhado de perto o horror da homofobia e da transfobia, quando essas nomenclaturas sequer existiam.

Dirce enfatiza que sua avó, criada na senzala, vivia sendo presa sob acusação de charlatanismo. “Na última vez em que isso ocorreu (sob pretexto de desacato), saiu da prisão aos 92 anos de idade. Vivíamos sob a égide de uma ditadura civil-militar”, destacou ao blog. Ela lembrou ainda que, sete décadas após ser chamada por todos os seus professores de “macaca com lacinho no cabelo”, hoje é chamada de “feminazi”, “intolerante” e “vitimista”.

“Por isso digo que minha geração fracassou, ou seja, não conseguiu deixar um mundo melhor. Assumo aí a minha parcela de culpa. Formei muita gente, mas minha esperança sempre foram os jovens e hoje grande, imensa parte deles têm como exemplo um messias, mais precisamente Jair Messias Bolsonaro”, lamentou.

No auge da campanha, o jornalista Lucas Franco, seu conterrâneo, gravou um vídeo em defesa do “nonsense” da anticandidatura como uma forma de responder à distopia do Brasil atual. “Ela é a síntese do Brasil. A síntese de um país que violenta as mulheres e os negros. Ela é uma vitoriosa”, resumiu. (*) Com informações do Uol



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